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Existe o ser, o não ser, e todas as carências do existir. Existe o que é, o que não é, e todas as incongruências do ser. Existe o estar, existe o não estar e não existe mais nada. E, além disso, existe todo o desejo circundante que envolve e, envoltos, não se apega. Se breca. Se cala. Se ladra. Se eu fosse. Ai, se eu sêsse...

Quando eu fecho os olhos é muitos melhor porque não vejo nada. Mas. É, mas, mesmo que não veja nada, sei que a luz está acesa quando a luz está acesa. Sei, não sei. Mas sei que sei. E, quando abro os faróis, elas realmente estão acesas - o que me prova que eu estava certo. E provar a mim que estou certo é extremamente frustrante, uma vez que não estamos preparados para estar certos. Estar é tardar.

Sei. Não, começo de novo. Penso. Não, pela última vez. Sinto que Apolíneo dentro de mim morreu e só existe em Nova Iorque, na Bossa Pessoa não. Sinto então que, enquanto em mim Apolíneo dorme, Dionísio vinha o vinho. E o vinho tem algo qualquer como o cigarro. Algo de se ser, ou de se estar, mundano e fino. Finjo. Mas não sei.

Enquanto Apolíneo dorme, meu Dionísio não faz barulho. Pois apesar do prazer que se sempre tem em se falar alto, é melhor perder esse prazer e não se perder o resto. Ou no resto. Perder-se no resto é muito pior. Uma vez no resto...enfim, só com gim você sabe.

Ou imagina que sabe.

O fato é que não existem fatos. E há algo qualquer no mim que perde para o sangue. Há algo qualquer no eu que peça para que Apolíneio durma em paz. Passar por tudo de novo? É, talvez seja a chance se Dionísio se regenerar. Apesar de eu não acreditar nisso, óvio. Mas no ópio eu creio, e sempre crerei. Mesmo que o sempre só dure o vento rompando a esquina como meus dedos flácidos rompem o papel.

Higiênico.

Sem frustrações, ou com quase todas ela que nem percebo, sei que cuidarei do sono de Apolíneo.

Que ele durma em paz em NI. E que nós possamos ficar acordados. Em silêncio.



¤ Postado por Isadora Machado às 01h09
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"Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás  por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras — e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão." LISPECTOR, Clarice. Água Viva. p. 12

E eis que meus lábios tão ressequidos e ressentidos e novamente engolidos pelas horas do tempo voltam a se tocar pela ausência de velhas significações. O encontro do eu com o mim. Não há mais tempo. Nosso momento é o instante em que, no sonho, ele me entrega o bilhete amarelo: não se sinta só. Nosso tempo é quando.

Explosão.



¤ Postado por Isadora Machado às 14h38
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