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CASO DE PESCADOR

"QUEM AMBICIONA ALGO MAIS TERÁ UM DIA DE SOFRER A VERTIGEM. O QUE É A VERTIGEM? MEDO DE CAIR? NÃO, VERTIGEM É ALGO MAIS QUE MEDO DE CAIR. É A VOZ DO ABISMO QUE NOS TENTA, É O DESEJO DA QUEDA, CONTRA A QUAL, ATERRORIZADOS, NOS DEFENDEMOS." - MILAN KUNDERA

Se houvesse um fotógrafo em cima do telhado da casa a minha frente, ele teria uma cena que gostaria muito de ver:

 

            Eu estava entre dois panos de prato. Com um Capri, ora entre os dedos, ora entre os lábios. Ora entre cada alvéolo. A foto se chamaria: “Ave Maria também vive de pequenas alegrias”.

 

Dois peixes conversavam amistosamente, cada um sentado em sua respectiva ostra. Ventava no Oceano Índico.

 

- Mas você concorda mesmo com a calúnia de ‘memória de peixe’?

- Não é uma questão de concordar. Os humanos também são peixes. Mas em câmera lenta.

- E isso é melhor ou pior?

- O que dizem na sua casa?

- Todos esquecem de falar de memória na minha casa.

- Nunca conversaram sobre isso?

- Não é questão de sim ou não. Apenas nunca lembramos.

- Mas não lembrar é diferente de esquecer.

 

Borbolhas interrogativas.

 

- Lembrar pressupõe um esquecimento inicial, mas pressupõe também saber do que não se lembra. Você não lembrava e, de repente, aquilo volta à memória. Esquecer é o apagamento por completo.

 

Borbolhas pensativas.

 

- E por isso é que para os humanos é pior. Memória humana é pior. Primeiro você lembra sempre. Depois, esquece. Mas esquece primeiro o cheiro da pessoa. O cheiro nunca mais é sentido no cérebro. Depois, eles esquecem como era tocar o cabelo da outra pessoa. Então eles esquecem do comprimento dos cílios, e do formato do dedão do pé e dos outros dedos. Em seguida, esquecem da voz. Esquecendo a voz, não sabem mais como funcionava a língua humana, no sentido mecânico. Depois esquecem a língua no sentido-palavra. Não conseguem mais sentir a sensação das palavras ditas pelo outro. Por fim, esquecem de como a outra pessoa olhava. Assim que esquecem os olhares e os olhos, esquecem de tudo. E está tudo acabado. Nunca mais se lembram.

 

- E por acaso os humanos reparam formato de dedos ou tamanho dos cílios?

 

- Aí é que está a parte mais doida da história deles. Eles só guardam essas lembranças de pessoas que amam. Assim, o esquecer pior é quando se está esquecendo de quem se amou.

 

- Acho que prefiro ser peixe.

 



¤ Postado por Isadora Machado às 11h06
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Por entre a fumaça e o vinho
Por dentre os sons sem quilíbrio d'alta-noite
Ébrios
Deuses
Sonhos
Todos
Mundos
Corpos
Copos de leite
Doce deleite
Sonhar...

Ébrios ares
acres,doces
hálitos
fosse o vinho filante...

Deuses deram
o toque feiticeiro
e o tato inteiro tinha o cheiro
deleitoso do delírio.
Como lírios, papoulas
pelos
poros
florescia o louro dourado dos sonhos.
Caminhavam na escuridão
tornando sonho o que era chão!

Era arredia a onírica terra:
como a hera,
espalhou-se o espaço
debaixo dos seus pés...

Do espectral teatro
encenou -se o ato de despertar.
Tão perto o peito arfante,
Repleto antes de cor que de ar,
quedou-se do medo
vaporosamente em minha digital,
No curto silêncio dos meus dedos.

Ao som do susto
tateei com custo
meu próprio rosto,
meu próprio corpo.
E fui encontrá-los
nos olhos que me fitavam
Faziam fita, faziam cena,
fariam até cinem se soubessem cantar
os meus sentidos.

Perdido pelo alheio devaneio,
Num enleio entrelaçado
dum permeio de loucura e fado,
de mãos dadas com as fadas da Beleza
Rompi a tísica vida,
Metafísica ferida,
pelas tuas unhas
quebrei a incerteza de estar sano;
Do meu crânio trouxe os negros panos,
trouxe os pratos,
pra vestir e mastigar
o alimento e o sustento.
Tirou o pó,
pôs retrato,
E fez de fato
Meu sopitado lar
a quimera além-matéria
de poder-te etérea, eternamente
te tocar.

Escrito por Carlos Batata, em um momento em que minhas mãos ficaram sem ar.



¤ Postado por Isadora Machado às 10h55
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