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(...)

Não sei se a vida é pouco ou demais pra mim.

Não sei se sinto demais ou de menos.

Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,

a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,

a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,

de sair para fora de todas as casas,

de todas as lógicas, de todas as sacadas

e ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

 

Álvaro de Campos via Fernando Pessoa

 

 

- A senhora já teve filhos?

- Sim, frutos do Desejo.

- Mas estes não contam, não te protegem da mágoa.

- É, eu sei. Pedi várias vezes um filho para o coração não ressecar, só que ninguém dividiu comigo.

- Então, câncer de útero. Preciso de mais exames para estabelecer a causa. Há uma mancha escura na ultra-sonografia. Pode ser um tumor benigno, como pode ser apenas amor-empedrado. De qualquer forma, tudo indica câncer, uma das formas de o amor empedrar.

 

Exames. Vários. Outros. Mais. Sempre se cansa das descrições. Lógico.

 

- Não, o diagnóstico foi equivocado. Ao que parece, a senhorita estava grávida e o bebê apodreceu. Algo praticamente simples, desnecessariamente preocupante. Uma intervenção cirúrgica de alguns trinta minutos e a senhora terá os restos do elemento dentro de um vidrinho. Embalado para levar.

- Mas, Senhor, há certeza no que se diz?

 

Trecho do meu conto intitulado "Pedra, flor, espinho"



¤ Postado por Isadora Machado às 17h00
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Mas

"... eu devia deixar de ser trouxa e aprender de uma vez por todas a não confiar nas pessoas. Pelo menos em determinadas pessoas. Mas, não, sempre vou manter um fiapo de esperança na boa índole de gente próxima - só para constatar, mais uma vez (e outra, e outra, e outra...), que a única saída para o gênero humano é a explosão deste planeta miserável e os viventes que o infestam. Incluindo este que vos escreve - que é para eu deixar definitivamente de ser besta.

Vale dizer que eu só cumprimento gente que eu minimamente respeite. No entanto, há quem ainda insista..."

Meu querido amigo de blog, Ricardo Miyake

Faço das palavras dele, as minhas.



¤ Postado por Isadora Machado às 13h33
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Eu olho. O olho me olha. Eu não vejo.  Olho. Olho. Olho. Até agora você não sabe se é verbo, se é berro, se é olho. Não? Não. Eu não. Eu olho. Eu não olho. Eu não aguento os olhos olhando para os olhos dos outros que pensam que são olhos. Olhar permanentemente o corpo...de um poema. Já diria ela. Eu n/ao quero filete de sangue nas gengivas. Eu quero olho sem sangue. Eu não aguento mais olho com sangue. Pra que serve sangue no olho, alguém explica? Ninguém. Ninguém. Ninguém. Toda fascinação vem do olho. Eu olho as fascinações, elas me olho]am. Um pra frente. Meio. Um pra trás. Adoro esse ritmo. Enquanto isso, olho no espelho o filete de sangue nos olhos. Dentro deles, entendam bem. Enterrei meu olho dwentro de mim. Odeio janelas. Odeio janelas - isso foi um grito bem alto. Porque a boca abafa o grito? Não sei. Não sei. Não sei. Eu odeio os olhos. Eles consentem o abafar do grito.



¤ Postado por Isadora Machado às 16h35
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